Home Data de criação : 07/02/21 Última atualização : 11/10/17 14:52 / 53 Artigos publicados

Fita Verde No Cabelo  (Ditos) escrito em quinta 11 setembro 2008 11:58

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos  e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.

Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe madara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia.

Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo.

Então, ela, mesma, era que se dizia:

_ Vou à vovó, com o cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou.

 A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê e que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós.

Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar  essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque toque, bateu:

_ Quem ?

_ Sou eu... _ E Fita-Verde descansou a voz. _ Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe mandou.

Vai, a avó, difícil, disse: _ Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe.

Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e franco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: _ Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

_ Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que não tão trementes!

_ É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta... _ a avó murmurou.

_ Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!

_ É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta... _ a avó suspirou.

_ Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?

_ É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha netrinha.... _ a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez. Gritou: _ Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!...

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino do corpo.

 

João Guimaraes Rosa.

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O neném  (do Neném) escrito em quinta 04 setembro 2008 06:12

Blog de ivanalmeida :ivana almeida, O neném

Pois é, tem um neném dentro de mim. E tudo muda, tudo muda. É tudo aquilo mesmo, todas aquelas longas e delongas sobre o corpo, as dores, o cansaço sem medida, o sono interminável... mas por esses dias fiz um ultrassom que-nem fotografia. Incrível, o rostinho, as expressões, as formas, a plasticidade... aí eu penso na gravidez tudo de novo, com outro vigor e com muito mais lirismo... é quase inacreditável. Primeiro que a tecnologia me espanta, e sinceramente espero espantar-me sempre. E o que ela revela, é de uma doçura sem limites, gestos suspensos... me transporto para dentro do dentro e não é que me lembro que tem uma Vida dentro de mim? Mexe o tempo todo, se agita, abre os olhos (vê se pode) e tem alma. Me faz ficar igual a uma bola, me dá azia, dores nas pernas, ah, sim, um cansaço de-não-sei-o-quê. Mas isso tudo fica tão ínfimo quando olho para a pequenina boca meio biquinho, meio riso, num sono que a gente não alcança. Precisaria, desejaria aliás, ser uma poeta para descrever todo o infinito que ali reside. E me volto pra humanidade do aqui de fora, e, bom, vejo uma luz.

 

E o mais bonito é que esse sentimento transborda e alcança os nossos... http://sempapel.wordpress.com/2008/09/03/crescei-e-multiplicai-vos/

 

 

ahn, quase me esquecia de falar. A gente chora muito. E como é bom chorar.

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* * *  (Ditos) escrito em terça 19 agosto 2008 12:18

Quando já não havia tinta no mundo
o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel,
ele escreveu no próprio corpo.
Assim,
nasceu a voz,
o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem foz nem nascente.

 

 

M.C.

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A Chave de Chuva  (Ditos) escrito em quinta 14 agosto 2008 11:31

Eis o que eu aprendi

nesses vales

onde se afundam os poentes:

afinal tudo são luzes

e a gente se acende é nos outros.

A vida é um fogo,

nós somos suas breves incandescências.

 

 

Mia Couto

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Revelação  escrito em quinta 14 agosto 2008 11:31

Cada um descobre o seu anjo

tendo um caso com o demônio.

 

M.C.

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